Como ensinar uma criança a lidar com derrotas e frustrações
Perder uma brincadeira, não conseguir montar um brinquedo, receber um “não”, errar uma atividade ou ver outra criança chegar primeiro pode parecer algo pequeno para um adulto. Para uma criança, porém, essas situações podem despertar sentimentos intensos.
Choro, raiva, vontade de desistir, reclamações e dificuldade para aceitar o resultado podem aparecer nesses momentos.
A frustração faz parte da infância. Em vez de tentar eliminar todas as situações frustrantes, pais e educadores podem ajudar a criança a reconhecer o que está sentindo e, aos poucos, desenvolver maneiras mais adequadas de enfrentar derrotas e contrariedades.
A UNICEF destaca que o encontro com a frustração faz parte do desenvolvimento e que o papel dos adultos não é impedir completamente que a criança a experimente, mas ajudá-la a encontrar formas saudáveis de lidar com esse sentimento.
Por que algumas crianças ficam tão frustradas quando perdem?
A capacidade de controlar impulsos, mudar de estratégia, esperar e administrar emoções não aparece pronta.
Essas competências se desenvolvem durante a infância e podem ser fortalecidas com experiências, interações e prática.
O Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, explica que habilidades de função executiva e autorregulação são importantes para aprendizagem e desenvolvimento e podem ser exercitadas ao longo da infância. Entre outras coisas, elas ajudam a criança a controlar reações, ajustar planos e administrar a frustração diante de uma dificuldade.
Por isso, uma criança que reage mal ao perder não precisa simplesmente ouvir que deve “aprender a perder”.
Ela precisa de oportunidades para desenvolver essas habilidades.
Primeiro, ajude a criança a reconhecer o que está sentindo
Imagine que a criança perdeu um jogo e começou a chorar.
Em vez de imediatamente dizer:
“Pare de chorar. É só um jogo.”
o adulto pode ajudá-la a identificar a emoção:
“Você queria muito ganhar e ficou frustrado porque perdeu.”
Reconhecer a emoção não significa concordar com comportamentos inadequados.
É possível acolher o sentimento e, ao mesmo tempo, estabelecer limites para a reação.
A UNICEF recomenda ouvir a criança e reconhecer suas emoções, evitando dizer que ela não deveria estar triste, brava ou chorando.
O próprio Ministério da Educação inclui, entre expectativas de aprendizagem relacionadas à Educação Infantil, reconhecer e nomear sentimentos e expressar emoções de maneira saudável e construtiva.
Mostre que perder não significa fracassar
Uma partida tem um vencedor, mas isso não transforma todos os demais participantes em fracassados.
O adulto pode deslocar a atenção exclusivamente do resultado para perguntas como:
“O que você conseguiu fazer melhor desta vez?”
“O que foi divertido?”
“O que você pode tentar diferente na próxima?”
“Você conseguiu continuar mesmo quando estava difícil?”
Essa mudança também é recomendada no contexto esportivo. A American Academy of Pediatrics orienta que jovens atletas sejam valorizados pelo esforço, espírito esportivo e desenvolvimento de habilidades, em vez de serem criticados simplesmente por perder uma competição.
Não deixe a criança ganhar todas as vezes
Pode ser tentador facilitar uma brincadeira para evitar choro ou discussão.
Mas perder em situações seguras também oferece oportunidade de aprendizagem.
Jogos adequados à idade permitem experimentar espera, regras, erros, mudanças de estratégia, vitória e derrota.
Isso não significa transformar tudo em competição.
Também são importantes brincadeiras cooperativas e jogos sem vencedores. A American Academy of Pediatrics, por exemplo, sugere atividades de troca e cooperação quando crianças muito competitivas têm dificuldade para lidar com derrotas.
O equilíbrio é mais interessante:
às vezes ganhar, às vezes perder e também brincar sem competir.
Ensine pelo exemplo
As crianças observam como os adultos reagem às próprias frustrações.
Imagine um pai jogando com a criança e perdendo.
Em vez de reclamar, ele pode dizer:
“Eu queria ganhar e fiquei um pouco frustrado. Mas gostei de jogar. Vamos outra vez?”
É uma demonstração simples de que uma emoção desagradável pode existir sem determinar o comportamento.
A UNICEF destaca que crianças observam os adultos para aprender maneiras de lidar com emoções e recomenda conversar sobre sentimentos, inclusive utilizando personagens de livros e filmes para explorar como eles se sentem diante das situações.
Evite transformar a derrota em vergonha
Frases como:
“Você é muito chorão.”
“Não sabe perder.”
“Olha como seu irmão sabe brincar.”
podem transformar uma oportunidade de aprendizagem em humilhação.
Também vale observar comportamentos persistentes.
A American Academy of Pediatrics aponta que evitar desafios por medo de fracassar, desistir rapidamente diante da frustração ou tentar trapacear quando acredita que vai perder podem aparecer associados a dificuldades de autoestima. Isso não significa que um comportamento isolado indique um problema, mas padrões persistentes merecem atenção.
Uma sequência simples para usar depois de uma derrota
Quando acontecer uma crise porque a criança perdeu, experimente esta sequência:
Reconheça: “Você ficou muito frustrado.”
Dê espaço: permita alguns momentos para que a intensidade da emoção diminua.
Mantenha o limite: sentir raiva é permitido; agredir, quebrar objetos ou ofender outras pessoas não.
Converse: quando estiver mais calma, pergunte o que aconteceu e o que ela sentiu.
Procurem alternativas: “O que podemos fazer diferente da próxima vez?”
Tente novamente: ofereça novas oportunidades, sem transformar a experiência em obrigação.
Com repetição e apoio, situações cotidianas podem se tornar oportunidades para praticar autorregulação.
Histórias infantis podem ajudar a conversar sobre frustração
Livros oferecem uma vantagem interessante: a criança consegue observar o problema acontecendo com outra personagem.
Isso permite perguntas como:
“Como você acha que ele se sentiu?”
“O que você faria?”
“Ele precisava ganhar para se divertir?”
“O que poderia fazer depois de perder?”
Conversar sobre as emoções dos personagens é uma das estratégias sugeridas em orientações de parentalidade da UNICEF.
Leia gratuitamente O Menino que Não Sabia Perder

Para ajudar famílias e educadores a trabalhar esse assunto de maneira lúdica, o Literatura Infantil disponibiliza a história O Menino que Não Sabia Perder.
A história pode ser utilizada como ponto de partida para conversar sobre competição, derrota, frustração e a descoberta de que participar, aprender e se divertir também são importantes.
Depois da leitura, experimente perguntar:
“O que você aprendeu com a história?”
“Como você se sente quando perde?”
“O que podemos fazer quando alguma coisa não acontece como queríamos?”
Transformar uma história em conversa pode ajudar a criança a relacionar o que aconteceu com a personagem às próprias experiências.
Aprender a perder também é aprender a tentar novamente
Ensinar uma criança a lidar com derrotas não significa fazê-la gostar de perder.
Significa ajudá-la a compreender que uma derrota, um erro ou uma frustração não encerra a experiência.
É possível ficar triste porque perdeu, reconhecer esse sentimento, recuperar a calma e tentar novamente.
Essas pequenas experiências fazem parte do desenvolvimento de habilidades de autorregulação que serão utilizadas em muitos outros momentos da vida.
Quando a frustração ou outras emoções negativas forem muito intensas, persistirem por períodos prolongados ou estiverem prejudicando significativamente a vida familiar, social ou escolar da criança, pode ser apropriado procurar orientação profissional. A UNICEF também recomenda atenção quando emoções negativas intensas e prolongadas começam a afetar essas áreas da vida.
Fontes consultadas: Ministério da Educação do Brasil, UNICEF Parenting, Center on the Developing Child da Harvard University e HealthyChildren.org da American Academy of Pediatrics.
